Caderno aberto e calendário com cartões de tarefas sobre uma mesa, representando a revisão e o planejamento do mês.

Revisão mensal de marketing: 3 decisões para o próximo ciclo

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A revisão mensal de marketing costuma terminar em um de dois lugares ruins: uma apresentação de números sem decisão, ou uma reviravolta motivada pelo post que foi muito melhor ou muito pior que os outros. Este texto propõe um formato intermediário para quem publica no LinkedIn para gerar conversas comerciais. Cada iniciativa entra na revisão com uma hipótese, um sinal medido e um critério escrito antes dos dados, e sai com uma de três decisões: manter, corrigir ou abandonar. O exemplo usa números inventados, de um trimestre fictício; o método vale para a revisão feita depois que o mês fecha, com os dados reais.

Revisão mensal de marketing: 3 decisões para o próximo ciclo

Revisão mensal de marketing: o que decidir

A revisão é uma retrospectiva e uma decisão de portfólio. O objeto não é cada publicação, e sim cada iniciativa: uma série de artigos, uma rotina de comentários em publicações de clientes-alvo, uma sequência de convites diretos, um formato de carrossel. Todas competem pelas mesmas horas.

O capítulo sobre cultura de pós-morte do livro de Engenharia de Confiabilidade do Google descreve práticas úteis, embora trate de incidentes em sistemas: registro escrito do que aconteceu, das causas e das ações de acompanhamento, critérios de disparo definidos antes do problema e a premissa de que as pessoas decidiram com a informação que tinham. A transposição para marketing é minha.

Por que um mês de dados diz pouco

Lewis e Rao analisaram 25 experimentos aleatorizados de publicidade digital, 19 com grandes varejistas e 6 com empresas de serviços financeiros. O desvio-padrão das vendas por pessoa era tipicamente cerca de dez vezes a média, e o intervalo de confiança mediano para o retorno sobre o investimento tinha mais de 100 pontos percentuais de largura. Mesmo com milhões de pessoas, o retorno era impreciso. Os autores ressalvam que o resultado não vale para baixa volatilidade de vendas nem para produtos novos. Minha extrapolação, que a fonte não demonstra, é que uma consultoria com poucas dezenas de oportunidades por trimestre tem menos base ainda para ler diferenças pequenas entre meses.

Gelman e Carlin tratam do que acontece com os resultados que parecem convincentes. Em estudos pequenos e ruidosos, uma diferença estatisticamente significativa pode ter o sinal errado e tende a superestimar o efeito. Num dos exemplos do artigo, com poder estatístico de 6%, a chance de sinal trocado era de 24% e o exagero esperado, de quase dez vezes. A recomendação é estimar esses riscos com base em informação externa aos próprios dados. O post de desempenho extraordinário foi selecionado justamente por ser extraordinário, e a primeira estimativa do que ele vale costuma estar inflada.

Ioannidis, num ensaio de opinião cujas premissas o próprio autor chama de subjetivas, argumenta que quanto menores os estudos e maior a flexibilidade de definições e análises, menos provável que um resultado “positivo” seja verdadeiro. Button e coautores estimaram poder mediano de 21% em estudos de neurociência e descreveram a “maldição do vencedor”: quem descobre algo num estudo pequeno tende a encontrar um efeito inflado. Ambos são de pesquisa científica, e o que se leva para a revisão é a regra de prudência.

Tversky e Kahneman perguntaram a psicólogos profissionais sobre decisões de pesquisa e concluíram que a maioria tinha crença exagerada na chance de replicar um achado. Descrevem alguém com “confiança excessiva em tendências iniciais”, que raramente atribui um desvio à variação amostral porque encontra uma explicação causal para qualquer discrepância. É o que acontece quando se constrói uma teoria sobre por que o post de terça foi melhor que o de quinta.

Gelman e Loken mostram um mecanismo que afeta a própria revisão: quando as escolhas de análise dependem dos dados, o valor-p perde o significado mesmo sem busca deliberada pelo resultado favorável, porque com outros dados teriam sido feitas outras análises igualmente razoáveis. Escolher depois de ver os números qual métrica “mostra” o efeito é um caminho desse tipo; por isso a ficha abaixo fixa a métrica antes.

Ausência de evidência não é fracasso

Altman e Bland observam que estudos sem diferença significativa são tratados como “negativos”, como se tivessem mostrado ausência de diferença, quando em geral mostram apenas ausência de evidência de diferença. A Associação Estatística Americana (Wasserstein e Lazar, 2016) afirma entre seus princípios que conclusões científicas e decisões de negócio ou de política não devem se basear apenas em um valor-p passar de um limiar, e que significância estatística não mede o tamanho de um efeito nem a importância de um resultado.

Na revisão, o sinal de cada iniciativa tem três desfechos: a favor da hipótese, contra, ou inconclusivo. Inconclusivo é legítimo e não é fracasso, mas não pode durar indefinidamente; a ficha abaixo exige definir antes quantos ciclos ou observações a iniciativa tem para produzir um sinal legível.

A ficha de iniciativa

Cada iniciativa ocupa uma linha com estes campos, preenchidos antes do período e conferidos depois.

CampoO que registrar
DoseO que será feito, quantas vezes, por quem. Ex.: seis artigos no trimestre.
Hipótese“Se fizermos [dose], então [sinal] em [prazo].”
Sinal intermediárioO que aparece cedo e é registrável: respostas a convites, comentários de pessoas do público-alvo.
DesfechoConversa qualificada, proposta, contrato, com data de maturidade (ver abaixo).
CritérioEm que condições mantém, corrige ou abandona, escrito antes.
Limite de causaO que não se poderá afirmar mesmo que o sinal apareça.

Kohavi e coautores recomendam decidir o critério de avaliação antes de olhar os dados. O guia deles trata de sites com muito tráfego, e a ideia serve também aqui.

O horizonte do ciclo comercial

Um desfecho precisa de tempo para acontecer. Registre os dias do primeiro contato à proposta e ao contrato, mas não olhe apenas negócios ganhos: acompanhe também os abertos e perdidos. Casos ainda abertos não são vendas fracassadas nem concluídas. Use o histórico para definir uma data de revisão, reconhecendo a dispersão dos prazos; a mediana não é um prazo em que todos os negócios estarão encerrados.

As ferramentas de medição também têm horizonte. A publicação de engenharia do LinkedIn sobre rastreamento de conversões, de 2016, descreve uma atribuição que olha para trás, com janela padrão de 30 dias, que descarta conversões sem impressão ou clique associado e dá precedência ao clique sobre a impressão. As regras atuais da plataforma podem ter mudado, e vale conferir no painel quais janelas estão ativas. O ponto geral é que o que cai fora da janela não aparece no relatório, e ausência no relatório não equivale a ausência de efeito.

Sobre prazos longos, a pesquisa de Binet e Field para o IPA, com 996 campanhas de 700 marcas, afirma que métricas de curto prazo sozinhas podem enganar e mostra efeitos emocionais que se acumulam ao longo de anos. É pesquisa sobre publicidade de marca, não sobre conteúdo orgânico. O que se retira dela é o campo de data de maturidade: iniciativas de reputação não devem ser julgadas pelo mesmo calendário das de convite direto.

O que se pode afirmar sobre execução e resultado

A revisão pergunta três coisas em ordem: a iniciativa foi executada como combinado? O sinal intermediário apareceu? O desfecho comercial apareceu, dentro do horizonte? Cada resposta tem um grau diferente de confiança, e a pior armadilha é pular da primeira para a terceira, atribuindo um contrato a um artigo porque o contratante o leu.

Lewis e Rao dão a razão. Os anúncios, por desenho, não são entregues ao acaso, e por isso, nas palavras dos autores, o viés de seleção é uma preocupação “paralisante” para métodos observacionais: as pessoas expostas já diferem das demais na probabilidade de comprar. Por analogia, quem interage com o que você publica já tende a se interessar pelo tema: interagir e comprar andam juntos sem que um cause o outro.

O que dá para fazer: registrar a execução com datas, comparar formatos de forma deliberada quando o volume permitir, e usar o campo “como conheceu” do cadastro de oportunidades como pista, lembrando que é relato do cliente e tem falhas de memória. Com poucas dezenas de oportunidades, um teste entre variantes raramente terá poder para o desfecho final; serve mais para sinais intermediários, e mostra qual variante vai melhor, não por quê, como Kohavi e coautores registram.

Exemplo hipotético: a Rota Clara no terceiro trimestre

A Rota Clara é uma consultoria fictícia de logística para indústrias médias. Premissa inventada: o ciclo mediano, do primeiro contato ao contrato, é de 75 dias nos negócios fechados. Os números, também inventados, referem-se a julho a setembro.

IniciativaExecuçãoSinalDecisão
Artigos quinzenais6 de 62 conversas citam um artigoManter; desfecho pendente até 75 dias após a última conversa
Comentários em posts de clientes-alvo40 de 609 respostas de autoresCorrigir a execução antes de julgar o efeito
Convites a um diagnóstico gratuito30 de 304 aceites, 1 propostaManter; proposta aguarda maturidade
Carrossel de estudo de caso1alcance 5 vezes a mediana, nenhuma conversaTestar: mais dois carrosséis no mesmo formato
Frases motivacionais diárias90 de 900 respostas qualificadasAbandonar, conforme critério fixado antes

Nos artigos, duas conversas não demonstram nem descartam contribuição útil. Nos comentários, a execução ficou em dois terços do combinado; julgar o efeito sem reconhecer essa execução incompleta mistura explicações. No carrossel, uma observação isolada sugere uma hipótese a investigar, não uma mudança de portfólio. Na última linha, o critério escrito em junho previa abandonar a iniciativa após dois ciclos executados sem resposta qualificada; esse critério foi atendido. A decisão segue um acordo anterior, sem provar que o formato seja inútil em todo contexto.

Regras de decisão

Manter vale quando a execução foi cumprida e o sinal é compatível com a hipótese, ou quando o desfecho ainda não atingiu a data de maturidade. Corrigir vale quando a execução ficou abaixo do combinado ou a medição falhou; o limite de 80% de execução, que sugiro, é meu. Abandonar vale quando a iniciativa foi executada como planejado por pelo menos dois ciclos, os sinais ficaram abaixo do mínimo fixado antes, o horizonte comercial já passou ou o custo em horas superou o teto. Uma publicação isolada altera no máximo uma hipótese a testar, nunca o portfólio.

Limites

As fontes tratam de ensaios clínicos, neurociência, psicologia e anúncios de grandes anunciantes; nenhuma analisou consultorias pequenas nem conteúdo orgânico no LinkedIn, e a aplicação por analogia é minha. A publicação do LinkedIn tem quase dez anos. As regras de decisão e os números do exemplo, incluindo o limite de 80%, são sugestões, não resultados de pesquisa. Nada aqui mostra que uma iniciativa específica gera contratos.

Perguntas frequentes

Quantos posts eu preciso antes de mudar um formato? Não há número que as fontes sustentem. Defina, na ficha, quantas observações do mesmo formato você exige, e trate esse número como acordo da equipe.

E se meu ciclo comercial for muito curto? Então a data de maturidade chega cedo e o desfecho pode ser julgado na própria revisão mensal. A cautela sobre amostras pequenas continua.

Posso ignorar os números e confiar na percepção? Tversky e Kahneman sugerem desconfiar da própria impressão sobre amostras pequenas.

Para ampliar a revisão além do calendário de posts, relacione as iniciativas ao sistema descrito em marketing como motor de receita. Isso ajuda a separar execução de conteúdo, sinais comerciais e resultado financeiro, sem presumir causalidade.

Referências internacionais

  1. Lewis, R. A.; Rao, J. M. (2015). “The unfavorable economics of measuring the returns to advertising”. The Quarterly Journal of Economics, 130(4), 1941–1973
  2. Gelman, A.; Carlin, J. (2014). “Beyond power calculations: assessing Type S (sign) and Type M (magnitude) errors”. Perspectives on Psychological Science, 9(6), 641–651
  3. Altman, D. G.; Bland, J. M. (1995). “Statistics notes: absence of evidence is not evidence of absence”. BMJ, 311, 485
  4. Binet, L.; Field, P. (IPA). The Long and the Short of It (apresentação de pesquisa)
  5. Lunney, J.; Lueder, S. “Postmortem culture: learning from failure”, em Site Reliability Engineering, Google/O’Reilly
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Jorge Gadelha
Jorge Gadelha

Jorge Gadelha é estrategista empresarial, consultor e educador em Marketing, Vendas e Design Estratégico. Fundador do NúcleoHub e do Planejamento.Marketing, atua na elaboração de estratégias, planos de marketing, estruturação comercial e formação de profissionais de negócios.